quarta-feira, 19 de junho de 2013

Orgulho

Tinha sete anos quando ganhei minha primeira medalha de ouro. Para ser fiel à teoria da compensação que tanto prezo, lembro que me faltavam os dois dentes da frente.

Tinha onze anos quando passei no meu primeiro concurso e entrei no que considero o melhor colégio do mundo. Para ser fiel à teoria da compensação que tanto prezo, trata-se de uma instituição pública federal.

Convivi com um corpo docente de grandes mestres e com a falta de infra estrutura das escolas públicas. Se havia grandes físicos que conseguiam encantar até os alunos de intercâmbio que não falavam uma palavra de português, faltavam os laboratórios para sairmos da teoria. Se as aulas de português incitavam todos a ler as páginas de Dom Casmurro e dos Lusíadas, faltavam exemplares na biblioteca.

Mas, foi assim, ao lado de pessoas extremamente carentes e de filhos de diplomatas e empresários, que cresci e me eduquei. O mauricinho da zona sul, que vinha de motorista, chegava mais vezes atrasado do que o colega que morava no subúrbio e pegava três conduções. Sabendo disso, não era difícil entender quem dava cola para quem. Entendendo isso, também não era surpresa quando o cara que tinha motorista matava aula para ir na Cinelândia protestar pela gratuidade no transporte público. Para o amigo.

O uniforme era igual, o material era igual, as aulas eram iguais. Todos poliglotas, aprendendo grego, latim, francês, inglês, português... Mesmo no futebol todo mundo era igual. No lanche, nem sempre. Podia comer a merenda da escola ou comprar algo na cantina. Aprendi, entre amigos, que não se julga o valor de R$ 0,20 ou de um lanche de graça. E eu era só uma criança.

Acabei entendendo na marra que junto se vai mais longe. Faltava poder mudar.
Estudei para ser Economista da maior universidade federal do Brasil e entender nossos problemas. Convivi, dessa vez, com as pessoas mais brilhantes que conheci até hoje, com as mazelas do ensino público novamente e segui com a sensação de que ainda me faltava poder para mudar. Atua de maneiras interessantes a tal lei da compensação...

Hoje, trabalho na empresa que quer tornar o mundo um lugar melhor. Tem como lema "don't be evil" e, ainda assim, me faltava o poder de mudar. (!!!)

Aí, ontem, andando pela Avenida Faria Lima lotada de gente, fui tomada de uma energia e uma alegria e voltou tudo: o ônibus que tive de graça, a escola que tive de graça, a faculdade que tive de graça. E, para ser fiel à teoria da compensação que tanto prezo, lembrei que sou uma gigantesca exceção.
Mas lembrei dos meus 11 anos, quando queria que todo mundo conseguisse ir à aula, senão não tinha graça. E, então, ficou claro.

Por coincidência (ou não, vai saber) no último post havia falado sobre isso: viajar acompanhado é melhor. Mudar o Brasil é uma excursão. Só fica bom se vai "geral".

Só que como estamos aprendendo e somos iniciantes nessa coisa de levantar do berço esplêndido, alguns vão fazer merda no caminho. Fato. Mas se lembre da escola: o futebol não perdia a graça porque um retardado isolava a bola. Todo mundo escalava o muro, pegava de volta e o jogo recomeçava.

Que seja assim hoje. São muitos os motivos para nos mobilizarmos, mas largamos atrasado. Já perdemos a medalha de ouro. Temos que ir com calma, em paz, sem violência. O objetivo agora é chegar no final.

Por fim, para continuar fiel à teoria da compensação que tanto prezo, que cheguemos sem medalha no peito, mas com todos os dentes na boca e, se der, uma rosa branca na mão.