Ainda assim, quinta passada fui dar uma corrida para ajudar o metabolismo basal a acordar. Na ocasião eu estava em Niterói e decidi estender meu trajeto para além dos 5Km previstos. Não coincidentemente - quem me acompanha aqui ao longo dos anos sabe que não acredito em coincidências - essa decisão me fez cruzar com o Sr. José* (nome fictício), vendedor de coco cuja barraquinha estava localizada um pouco depois do Museu de Arte Contemporânea.
Eu - sedenta - e ele - ajeitando as mercadorias - me explicou orgulhoso que, infelizmente, havia se atrasado naquela manhã porque fora colação de grau de sua filha e o coco estava, portanto, quente; mas me ofereceu uma banana de cortesia. A alegria dele transbordou em mim e fiquei super orgulhosa também. Recusei a banana momentaneamente, avisei que voltaria depois para prestigiar o pai babão tomando meu coco lá e, eventualmente, aceitaria a banana brinde.
Retomei minha rota pensando no meu saudoso tio Andre que falava repetidamente sobre suas experiências nas regiões mais humildes do Nordeste onde, invariavelmente, as pessoas sempre lhe ofereciam o bem mais precioso que tinham com alegria: um copo de água. Apesar de nunca ter vivido essa experiência com meu tio, de algum modo, ela é muito viva em mim e me relaciono fortemente com essa coisa de estarmos abertos a dar o melhor que temos todos os dias, de verdade.
No meu pace de sedentária, não a vi a hora passar, e acabei não conseguindo voltar até a barraquinha do Sr. José naquele dia. Fiquei frustrada comigo mesma por ter me comprometido com ele e furado. Sei que parece besteira, mas o dia estava começando tarde para ele, já não havia muita gente se exercitando por alí, eu sabia que seria uma venda dentre poucas e, mesmo sem ter absolutamente nenhuma obrigação, me comprometi, falei que faria e não fiz.
No dia seguinte consegui fechar o trabalho mais cedo, calcei o tenis e fui de novo. Com o objetivo de provisionar calorias para o fim de semana? Sim! Mas, principalmente, queria encontrar Sr. José. Não encontrei. Corri até Icaraí e depois em direção à Boa Viagem - sem sucesso. Acabei me auto consolando de que havia pelo menos tentado com vontade e que haveria outras oportunidades de comprar meu coco com ele.
Enquanto isso, no mundo virtual, onde os algoritmos insistem em nos mostrar até o que não queremos ver, nessa semana havia aprendido que, segundo Carl Jung, nós somos o que fazemos e não o que falamos que vamos fazer. Nossa, como concordo com ele!
E assim, o encadeamento cósmico dos eventos do fim de semana me levou a enxergar que Niterói não é casa afinal, que é preciso mudar o trajeto da minha corrida e que, portanto, as chances de encontrar o Sr. José novamente são muito baixas. Ainda assim, se o vir por aí, compre um coco por mim.
Afinal, eu falei que voltaria. E, no meu caso, o que eu falo vai sempre valer.
Lindo texto!
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