sábado, 26 de outubro de 2024

O sim é inconfundível

Quando escrevi o meu último post, tinha certeza de que o próximo seria sobre o meu pai e seus 70 anos, a festa que fizemos para ele e sua ansiedade adolescente dos convidados não aparecem. Mas não foi. 

Depois, tentei falar sobre a segunda chance que eu e Londres nos demos e nosso atual crush em dias de sol. Ainda assim, não. 

Quando chegou Outubro, pensei: "É agora, meu aniversário, meu tão desejado baile à fantasia!". De novo, não. 

Interessante como o não vem em diferentes formas e o sim é escandaloso, exibido e não sabe esperar... 

De todas as configurações confortáveis para eu voltar a escrever aqui, foi curioso ter sido num café de temática retrô e festiva, num dia de sol, que me sentei, pagando em dólar uma mocca superfaturada, e abri o laptop. Quem explica a necessidade do sim?!

Anteontem estava lendo passagens do Livro do Desassossego e, um ensaio que citava a admirável capacidade das crianças em explicar o que sentem, contava de uma ocasião onde teria uma delas se explicado assim: "Estou com vontade de lágrimas!". 
Achei cristalino e genial o detalhamento do momento onde já não tem mais jeito, as gotinhas já estão incontidas nos cantinhos dos olhos, à beira de desabar. Sem medo. Sem vergonha. 

Adorei a passagem, marquei com uma orelhinha e deixei na mesinha de cabeceira para o próximo curioso refletir, porque o livro não é meu. 

= = = 


Gosto de férias de verdade. De me desconectar de tudo. Até demais. Amigas, mãe, boletos, críticas não faltam a esse desapego. Mas, é no silêncio das coisas, que paro para ouvir o chamado do que fico encafuando embaixo do tapete. E tem sido muito, sabe? A gritaria lá embaixo tá alta e andava com medo de escutar.

Talvez, por isso, a versão pueril da personagem tendo "vontade de lágrimas", me pegou. Não por tristeza, até porque lágrimas de alegria são melhores que muita risada, mas pela simplicidade e coragem em falar de um sentimento com força.

Ando muito atenta, mas meio muda. Cagona. Esquisito. Logo eu, que sempre pequei por não guardar a língua dentro da boca, como diz a Carolina minha irmã. Logo eu, que não tenho medo de perguntas difíceis e nem de respostas indigestas. Duas semanas de férias total, silêncio de trabalho, amigos, fofocas, até de notícias de política e economia (quem ganhou as eleições por ai?). 

O fundo do tapete tá em festa, precisei sentar para escrever porque já não dá para ignorar.  O sim é inconfundível, preciso falar.  Mas não é fácil, até os que usavam as palavras como ninguém gostavam de se esconder de vez em quando. 

"O coração, se pudesse pensar, pararia." - Bernardo Soares / Fernando Pessoa em O Livro do Desassossego, 1982.

Vou ali fora, mas outra hora volto para falar do papai, de Londres e da minha Cleópatra. 💚


terça-feira, 4 de junho de 2024

O prazer oculto das faxinas

"Adoro uma fase que diz: 'the only reason for time is so that everything doesn't happen at once.' É uma boa perspectiva, e este livro me deu várias delas. Espero que te dê também."

O ano era 2012. O livro chama-se "A Felicidade, Desesperadamente". E o trecho acima é a transcrição da dedicatória de um crush que, à época, como o livro, contribuiu com novas perspectivas. Mesmo que de maneira fugaz. 

E tudo bem, porque alguém esperto já explicou que a vida é mesmo um sopro.

De qualquer forma, é maravilhoso reviver bons ventos. Lembrei desse livro há alguns meses durante um papo cabeça à beira do Pacífico com, quem diria, um novo crush - não dá pra negar que tenho um tipo. 

Desde então, fui em busca do livro no meio da metade dos meus pertences pré-pandemia, que agora moram na fazenda... Queria reler o texto delicioso que havia recomendado, mas não esperava a surpresa boa que foi ganhar uma viagem a 2012. 

Amo esses bônus das faxinas. É como se o universo nos presenteasse por circular a energia com uma mini viagem no tempo. De volta àqueles momentos que merecem uma segunda espiada, uma segunda arrepiada, uma segunda chorada, uma segunda gargalhada. Uma segunda vivida.

Quem me conhece sabe que sou minimalista, básica e desapegada. Vira e mexe esvazio tudo para começar de novo. Mas o que fica, fica. Nas roupas, nos livros, nas memórias.

Gosto, por exemplo, de limpar o armário e lembrar que ainda não doei uma tomara-que-caia amarela de 20 anos de idade porque ela me lembra um show muito especial do Kid Abelha em Guarapari. Tem sempre as despedidas dos tênis que me acompanharam na última volta ao mundo, a briga com as calças jeans favoritas que passam a não fechar e a confirmação de que a moda volta, com todas as roupas que já roubei da mamãe. 

Chegar às gavetas é o primetime! Quando paramos de escrever bilhetinhos? De amor, de lista de mercado, de lembrete pra si mesmo? Amo reviver os afazeres, os carinhos e as broncas nos papéis amassados perdidos nas gavetas. Contas, canetas, exames...um agradecimento à saúde e ao tempo por aqui.

Tem ainda as fotos, as bebidas e os perfumes... que marcam o tempo melhor do que qualquer relógio. 

Hoje de manhã a Celeida me chamou a atenção que os armários do quarto estão todos lotados e os do escritório, todos vazios. Hora de reorganizar! Hora da faxina e suas alegrias ocultas. 

Agora à noite, abri a gaveta e dei de cara com o livro cuja dedicatória iniciou esse texto. Me inundei de alegria com o primeiro achado cheio de significados e carinho.

O ano é 2024. O livro ainda se chama "A Felicidade, Desesperadamente" e, spoiler, aborda a necessidade de se esperar um pouco menos e amar um pouco mais. Não levem mais 12 anos para lê-lo!

E sempre use seu perfume favorito. Ser cheiroso é uma das poucas coisas que está totalmente no nosso controle. Tic-tac-tic-tac



domingo, 14 de abril de 2024

A criança que habita em mim

Outro dia fui impactada por um vídeo maravilhoso no Instagram que mostrava as respostas de crianças e adultos à seguinte pergunta: "Se você pudesse, o que mudaria no seu corpo?". As respostas dos adultos versaram sobre calvície, rugas e altura. Já as crianças, em toda sua genialidade, deram respostas como "Não mudaria nada, gosto do meu corpo assim" e a minha preferida: "Gostaria de ter uma cauda de sereia!". 

É impressionante como a gente vai se limitando ao longo da vida, né? Não quero bancar a louca hippie, mas é inegável que fechamos portas desnecessariamente...

O ano era 1992, e me lembro de fazer um desenho na escola sobre o tema "o que você quer ser quando crescer". Dividi a página na diagonal e na esquerda desenhei um sol, uma cruz, uma pessoa deitada e um carro com um farol vermelho no teto. No triângulo da direita desenhei uma lua, um bando de estrelas, cometas, uma nave espacial e um bonequinho que, com sua armadura, visitaria o espaço na minha imaginação. Não é óbvio, e totalmente factível? Seria médica de dia e astronauta à noite. Nem precisava de cauda de sereia para isso...Porque, aí sim, haveria uma dificuldade. 

Corta a cena para os anos 2000 e, qualquer um que me acompanhou academicamente, sabe que Física sempre foi o calcanhar de Aquiles. Não houve professor do Ph que conseguisse me fazer absorver mais do que as três leis de Newton. E vamos combinar que uma carreira de estudos aeroespaciais fica meio comprometida com esse gap de skills. 

Nessa mesma época, a boa memória que sempre me acompanhou seguia favorecendo, inclusive para decorar a reprodução das briófitas em Biologia ou as regras dos anéis aromáticos em Química. Mas, a latente hipocondria já me afastava com grande velocidade de uma carreira médica.

Nunca me frustrei. Amém. Mas essa lembrança viva de que realmente queria ser médica e astronauta vira e mexe volta. Principalmente quando estou brincando com meus sobrinhos. Hoje, um deles quer ser jogador de futebol, dançarino, desenhista e ter um canal de 1M de inscritos no Youtube. O outro, por enquanto, só quer ser igual ao irmão mais velho. Vamos conversar em 20 anos. Porque, afinal, para onde vamos quando crescemos, né?

Essa semana, peguei um carro de aplicativo voltando de um dia lotado do trabalho. Era sexta-feira, fechando uma semana incrível de aprendizado, reuniões e, felizmente, muito prazer com o que faço. Estava cansada, meio alheia ao caminho que o carro fazia e, só me dei conta de que já chegávamos ao destino, quando o motorista me despertou do meu devaneio perguntando: "Você trabalha na NASA?", respondi que não. Mas um orgulho absurdo, meio infundado, me acometeu -  e eu não soube direito o porquê imediatamente.

De fato, àquela hora da noite, só havia dois lugares para ir naquele quarteirão. Saltei do carro, olhei pro outro lado da rua, e ali estava a NASA. Entendi de supetão a felicidade que sentia. Durante aquela corrida de carro, mais alguém no mundo acreditou que eu podia ser astronauta. 

A criança que habita em mim sorriu largo. Celebrei que tenha tanta gente que manja de física e admirei a Lua - que sorria de volta. Entrei no hotel com a bolsa mais pesada: resolvi carregar minha cauda de sereia just in case. 




quarta-feira, 27 de março de 2024

Carnaval de Emoções

Janeiro voou deliciosamente. Fevereiro brincou com os sentimentos como deve ser, e Março veio lavando a bagunça com baldes de água fria.

Pulei um Carnaval de emoções, percorri a Santo Amaro esburacada - literal e figurativamente - com 40ºC na cabeça, talvez mais vezes do que deveria. Mas aprendi a identificar e desviar das novas poças diárias, cheias pelas águas que fecham o verão.

Quantas festas! Celebrei 102 anos muito bem vividos de vovó, Miguel e Rafa. Ri de mim, dos outros, dos primos e dos comentários anônimos.

Dormi suja na grama sem querer e escancarei a varanda de propósito, porque mudaram as estações.

Estudei tanto e trabalhei ainda mais. Como li! Amei livros que a Amazon não me deixou comprar e conheci Empresas só pela metade. Renovei vistos para poder ir a qualquer lugar mas mudei viagens com endereços conhecidos.

Lembrei como é bom ser cuidada e, então, cuidei de mim. Viciei na Hot Yoga e em acordar cedo sem querer. Tarots malucos sugeriram entrega e perdão. Atendi e engoli uns sapos para lembrar a dor e a delícia de ser quem sou.

Foi um bimestre para ficar orgulhosa e segura de gostar, de apavorar, de fazer podcasts e aceitar o silêncio. Confirma-se a teoria da Ale de que mulher carioca tem mais é que seguir em frente sem parar porque, afinal, é difícil atropelar avião. 

Falando em avião. Mudaram as estações. Nada mudou. Partiu Brazil at Silicon Valley.




sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Mil e uma noites de Janeiro

Todo mundo falando que Janeiro durou muito. E durou mesmo.
Da última vez que escrevi aqui, estava focada em encarar as coisas como elas são, independentemente do que se diz. Afinal, falar, até papagaio fala.

Hoje, presa sozinha no trânsito privilegiado dos teslas silenciosos do mundo, fiquei recapitulando o tanto de coisa que não foi dita, ainda que muito bem vivida, nesse mês que acabou de acabar. E, gente, foi só um mês mesmo? 

Dada a espontaneidade do desenrolar deste inicio de 2024, me peguei pensando nas experiências que já tive aqui em SFO, nos amigos e histórias e concluí, secretamente, que sou uma sonsa e bobona. 

Este Janeiro de um ano novo trouxe consigo anos muito velhos, trouxe encontros recém marcados ou há muito postergados? Vai saber... 
O compromisso com a distância garantiu a curtição das coisas que chegam meio que com data para acabar. Será? 
E, se a vida é uma só, poder celebrar também por outros, a saúde que celebrei por mim mesma há pouco, foi duplicar a gratidão de maneira imprevista. 

Falando em imprevistos, Janeiro chegou com um calendário caótico de alagamentos únicos, gentilezas inesperadas e viagens não marcadas. Numa entrega nova, que não me é peculiar, os dias foram sendo atravessados por árvores caídas, falta de luz, trilhas percorridas e muito carinho. 

Como quem quer aprender a velejar, aceitei a lição de que não dá para controlar o vento e, quando dei por mim, já estava no Pacífico, dentro de um caiaque. 

Gentileza gera gentileza? Nessa confiança que veio fácil, tirei pontos pela primeira vez e ganhei pontos pelos meus fun facts hipocondríacos. Segui sem cozinhar, errei a padaria, mas troquei meu CPF por uma pizza. Ainda devo um chá e um chopp no Bukowski

Assisti bobeiras de vampiros, the office, cruzei com vampiros no meu office...torci pelo 49ers e pelo Snape do Corinthians. Aliás, comparei Happy Potter aos heróis de Gabriel García Márquez. Assim, de cara, sem nenhum pudor. Eu não estou querendo impressionar? 

Religião, fé, beleza, assédio, ambição no trabalho, comprar um motor home, morar no cais do porto, escrever um livro, fofoca, família, amigos. Como você tá?

Ufa! Janeiro foi longo e de mão dupla. Mas caminhou cuidadoso, reservado e com vontade de agradar. Faltou tempo para visitar o Aquário...tudo bem. Mamãe sempre diz que é bom guardar alguma coisa pendente, para ter motivo para voltar. Da próxima vez vou ter que tirar o coelho da cartola para fazer tudo que faltou. 

Chegou Fevereiro. Uns voltam ao condado, outros chegam a colinas mais nobres. Me pergunto o que os camaradas do almoxarifado têm pra contar, porque essas mil e uma noites de Janeiro não deixaram nada no lugar. Que bom!